ENTREVISTA com Stanislas Dehaene
Stanislas Dehaene: “desconfio de cartilhas cheias de desenhos e pouco
texto. Existe um risco enorme de os alunos memorizarem as posições fixas
de cada palavra. Dão a impressão de saberem ler, mas não sabem”
Stanislas Dehaene: “em vez de focar os esforços no ensino das unidades
visuais, é preciso mudar para sons, fonemas. Jogos fonológicos podem
auxiliar, desde pequena, a criança a reconhecer palavras”
por Mariana Sgarioni
Mariana Sgarioni é jornalista. Esta entrevista foi originalmente publicada na edição 7 da revista Quanta.
Ao ler este texto você está executando uma tarefa para a qual seu
cérebro não foi concebido. Você pode até achar que a leitura é um ato
quase automático. Mas seu cérebro não acha. Pelo contrário, ele faz uma
verdadeira ginástica para se adaptar ao ato de ler. Neste momento, uma
revolução de sinapses está acontecendo a cada fração de segundo para que
você possa decifrar as palavras aqui impressas. Isso porque a escrita é
algo recente, se pensarmos na escala da evolução humana (tem cerca de 5
mil anos). Quem conseguir se lembrar do próprio processo de
alfabetização vai saber que não se trata de algo tão fácil. “Todas as
crianças, seja qual for a língua, encontram dificuldades para aprender a
ler. Estima-se que 10%, quando adultas, não dominem a compreensão de
texto”, afirma o matemático e neurocientista francês Stanislas Dehaene.
Em seu livro Os neurônios da leitura (Artmed, 2012), o
diretor da Unidade de Neuroimagem Cognitiva do Instituto Nacional de
Pesquisa Médica e de Saúde da França mostra que pesquisas da psicologia
cognitiva experimental já mapearam as áreas envolvidas no reconhecimento
da palavra escrita no cérebro. Tal descoberta questiona metodologias
empregadas nas escolas, que, em sua maioria, diz Dehaene, fazem do aluno
uma máquina de soletrar, incapaz de prestar atenção no significado.
Segundo ele, o cérebro aprende melhor pelo som do que pela imagem. Ou
seja: o ensino deveria ser centrado nos fonemas, e não em figuras.
Tanto que, foi constatado, há um progressivo aumento da atividade de
duas regiões cerebrais ligadas ao tratamento fonológico durante o
aprendizado da leitura.
Nascido no norte da França, Dehaene primeiro se dedicou aos estudos
da matemática. No entanto, sua paixão sempre foi o funcionamento do
cérebro. Hoje, é professor no Collège de France. “Meu interesse pela
capacidade de ler é porque se trata do principal movimento que o cérebro
realiza ao longo da vida. Há outra mudança importante, que é o
aprendizado da matemática.” Ele pretende que a pedagogia e a psicologia
possam se beneficiar dos estudos da neurociência para criar métodos de
ensino mais eficazes. “A escola transforma nosso cérebro”, diz. “Para o
bem, claro”, completa.
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NE: O senhor afirma que a leitura causa uma reviravolta nas nossas funções cerebrais preexistentes. Por quê?
Dehaene: Em primeiro lugar, gostaria de lembrar que a
leitura é uma das várias atividades que o homem criou nos últimos
milhares de anos. E trata-se de uma das mais recentes. A escrita nasceu
há cerca de 5.400 anos e o alfabeto propriamente dito não tem mais de
3.800 anos. Se pensarmos na evolução humana, esse tempo é mínimo. Nosso
genoma ainda não teve tempo de se alterar para dar conta de desenvolver
um cérebro adaptado à leitura. Por isso, afirmo que o ato de ler é uma
revolução: mesmo sem termos essa capacidade, o estudo de imagens
cerebrais nos mostra que adquirimos mecanismos extremamente requintados
exigidos pelas operações da leitura.
NE: Como isso acontece em nosso cérebro?
Dehaene: Temos uma plasticidade sináptica desde que
nascemos até a idade adulta. É ela que faz uma reconversão parcial da
arquitetura do nosso córtex visual de primatas para reconhecer letras e
palavras. Aprender a ler possibilita uma conversão de redes de
neurônios, inicialmente dedicadas ao reconhecimento visual de objetos.
Embora não exista uma área pré-programada para a leitura, podemos
localizar diversos setores do córtex cerebral como responsáveis pela
atividade. Um setor está em contato com as entradas visuais; outro
codifica essas entradas com precisão espacial; outro integra as entradas
de uma vasta região da retina, e assim sucessivamente. No córtex estão
os neurônios mais adaptados à tarefa de ler. Especificamente, nos
humanos, quem responde é o córtex occipitotemporal esquerdo. Porém, se
no curso da aprendizagem, por alguma razão, essa região não estiver
disponível, então a região simétrica do hemisfério direito entra em
jogo.
NE: Isso quer dizer que o cérebro é tão plástico que é capaz de se transformar e atender a qualquer uma de nossas necessidades?
Dehaene: Não. Existe a teoria, aliás, revisitada por
inúmeros pesquisadores, que aderem a um modelo que eu chamo de
plasticidade generalizada e relativismo cultural. Segundo ela, o cérebro
seria tão flexível e maleável que não restringiria em nada a amplitude
das atividades humanas. Diferentemente de outras espécies, ele seria
capaz de absorver toda forma de cultura. Pretendo mostrar em meu livro
que dados recentes da imagem cerebral e da neuropsicologia recusam esse
modelo simplista. Ao examinar a organização cerebral dos circuitos da
leitura, vemos que é falsa a ideia de um cérebro virgem, infinitamente
maleável, capaz de absorver todos os dados de sua cultura.
NE: Entretanto, somos capazes de atividades extraordinárias, como ler, por exemplo.
Dehaene: Sim, nosso cérebro é evidentemente capaz de
aprender. Porém, essa capacidade é limitada. Em todos os indivíduos do
mundo, não importa a cultura ou o idioma, a mesma região cerebral – com
diferenças mínimas – é ativada para decifrar palavras escritas. Minha
hipótese é diferente dessa do relativismo. Proponho o que chamo de
“reciclagem neuronal”. De acordo com essa hipótese, acredito que a
arquitetura do nosso cérebro é construída com bases fortes genéticas.
Mesmo assim, os sentidos do nosso córtex visual possuem uma margem de
adaptação, uma vez que a evolução nos dotou de certa plasticidade e
capacidade de aprendizagem. Isso quer dizer que os mesmos neurônios que
reconhecem rostos ou corpos podem desviar-se de suas preferências e
responder a objetos ou formas artificiais, como as letras. Nosso cérebro
se molda ao ambiente cultural, não respondendo cegamente a tudo o que
lhe é imposto. Ele apenas converte a outro uso suas predisposições já
presentes. Ele faz o novo com o velho. O cérebro não evoluiu para a
escrita, por exemplo. Foi a escrita que evoluiu para nosso cérebro.
NE: Como “a escrita evoluiu para o nosso cérebro”?
Dehaene: Examine os sistemas de escrita. Eles revelam
numerosos traços em comum. Por exemplo: todos, sem exceção, incluindo
caracteres chineses, utilizam um pequeno repertório de base cuja
combinação gera sons, sílabas e palavras. Essa organização se ajusta à
hierarquia das nossas áreas corticais, cujos neurônios reconhecem
unidades de tamanho e invariância crescentes. O tamanho e a posição dos
caracteres também correspondem à nossa capacidade de visualização e
retenção.
NE: Dessa forma, existe então um sistema de alfabetização mais eficaz para nosso cérebro?
Dehaene: Sem dúvida. Em vez de focar os esforços no
ensino das unidades visuais, é preciso mudar para unidades auditivas.
Sons, fonemas. Jogos fonológicos podem auxiliar, desde pequena, a
criança a reconhecer palavras. É preciso ajudar a criança a identificar
os diferentes sons que compõem uma palavra para só depois fazê-la
compreender que as letras representam esses sons. Depois disso é que a
criança estará pronta para juntar as letras. Desconfio de cartilhas
muito coloridas e bonitas, cheias de desenhos e pouco texto, assim como
cartazes desenhados nas paredes da escola que trazem as mesmas letras na
mesma posição o ano inteiro. Existe um risco enorme de os alunos – em
geral, os mais brilhantes – memorizarem as posições fixas de cada
palavra ou a aparência da página. Dão a impressão de saberem ler, mas
não sabem.
NE: Existe, portanto, diferença entre aprender a ler e compreender o texto.
Dehaene: Sim, claro. A compreensão daquilo que se lê
não está descrita em minha pesquisa. Mas isso requer a mobilização de
competências cognitivas muito mais complexas do que as envolvidas no
processo da alfabetização. Para compreender não é necessário saber ler.
Há adultos analfabetos que entendem muita coisa, apenas não aprenderam a
ler.
NE: Existe idade ideal para aprender a ler? Há prejuízos quando isso ocorre na idade adulta?
Dehaene: Pesquisei toda a literatura disponível a
respeito da idade ideal para a alfabetização. Há países que alfabetizam
alunos com 6 ou 7 anos e até mais tarde. Outros, com 4 anos. Não
encontrei nada que sugira que exista um período crítico para esse
aprendizado. Não haverá danos para o cérebro se o aprendizado for mais
tarde – ele reconhece objetos novos o tempo todo, não importa a idade.
Continuamos aprendendo, mesmo aos 40, 50 anos. Há diversos estudos
internacionais com adultos que aprenderam a ler perfeitamente. Portanto,
não acredito nessa limitação.
NE: Há alguma ativação cerebral peculiar em quem lê e fala
mais de um idioma? E em quem domina línguas com alfabetos ou grafias
diferentes?
Dehaene: Nós não sabemos o que se passa exatamente com
pessoas bilíngues, ou seja, alfabetizadas em dois idiomas. Fizemos
experiências com pessoas que leem chinês e outra língua e constatamos
que praticamente a mesma região cerebral é ativada. Evidentemente devem
existir microdiferenças, mas nada marcante.
NE: Nosso cérebro decodifica letras e números da mesma maneira?
Dehaene: Não. Os estudos mostram que não é a mesma
região cerebral que analisa as letras e os números. Pesquisamos pessoas
que perderam a capacidade de ler e continuam reconhecendo números. Há
uma pequena região lateral, a um centímetro daquela que reconhece as
palavras, que é a responsável pelos números. As formas das letras e dos
números são diferentes e culturais. As letras estão ligadas à linguagem e
os números, ao senso de quantidade. São dois sistemas diferentes de
entendimento.
NE: De que forma acontece a alfabetização no cérebro de pessoas cegas e surdas?
Dehaene: É extraordinário, pois os cegos que aprendem a
ler em braile, uma atividade tátil, ativam a mesma região cerebral da
leitura. É incrível, pois essa região não recebe estímulos visuais, mas
recebe os estímulos táteis. As formas visuais das palavras são ativadas
pelo tato, ao tocar as letras em braile. É uma experiência que
transforma as imagens em sons, o que demonstra que a língua falada não é
exclusivamente visual, ela também é tátil. O aprendizado em braile é
muito eficiente. No caso dos surdos, o aprendizado é mais difícil. É
como aprender a ler numa outra língua – uma criança brasileira lendo em
chinês, por exemplo. Ela não conhece os fonemas, as representações
fonéticas. É preciso que o professor tenha o conhecimento dessa
dificuldade, e uma maneira de trabalhar é ajudando o aluno a tomar
consciência da fonologia, tocando em sua boca a região correspondente ao
fonema quando se pronunciam as palavras. Quero lembrar, no entanto, que
todas as crianças são capazes de aprender a ler, sem exceção. Algumas
com um pouco mais de dificuldade, outras não.
NE: Além das estratégias de sala de aula, há outras atividades que favorecem o aprendizado da leitura e da escrita?
Dehaene: O sono é essencial para consolidar a
aprendizagem. É o que cérebro faz durante a noite. Pais que reclamam de
dificuldades de aprendizado ou de distúrbios de atenção devem, num
primeiro momento, entender que a noite é para dormir, e não para ficar
no computador ou na televisão. Todos os cérebros são capazes de
aprender. Apenas é preciso sistematizar o ensino.
NE: Pesquisas mostram que os brasileiros leem pouco e não
praticam a atividade por prazer. Uma das causas pode estar no processo
de alfabetização?
Dehaene: Eles podem não ler livros, mas leem muito pela
internet. Hoje há formas diferentes de leitura. Na internet, é possível
ler bastante, pesquisar, procurar novas informações. Há muito mais
pesquisas, por exemplo, do que antes. Não acredito na falência da
leitura, muito pelo contrário. Acho que ela vai continuar, mas de outra
forma. Assim como nós também evoluímos desde Gutenberg (gráfico alemão
que revolucionou a escrita com a invenção da prensa de tipos móveis).
Vamos descobrir novos meios de escrita e leitura. E, com certeza, nosso
cérebro vai se moldar novamente.