sexta-feira, 10 de abril de 2026

Aluna da Unesp recebe bolsa internacional para estudo que visa contribuir com o bem-estar de pessoas com osteoporose

Perda da densidade dos ossos pode inviabilizar implantes dentários que melhoram a qualidade de vida desses pacientes. Com o recurso financeiro, doutoranda Nathália Dantas Duarte vai analisar a aplicação de diferentes biomoléculas para a regeneração óssea.


São diversos os motivos que podem levar uma pessoa a necessitar de um implante dentário, desde acidentes até problemas relacionados ao avanço da idade. O uso de próteses não é uma escolha puramente estética, mas sim um tratamento que devolve ao paciente a capacidade de mastigar e até mesmo falar com clareza – melhorando, como consequência, a autoestima. 

Contudo, a quantidade e a qualidade óssea são determinantes para a estabilidade e o sucesso dos implantes dentários no longo prazo. Em situações em que a quantidade óssea é insuficiente, procedimentos reconstrutivos são fundamentais para criar um ambiente favorável à terapia com implantes. Nesses casos, o uso de biomateriais costuma apresentar um desempenho satisfatório, mas mesmo assim o reparo dos ossos em indivíduos com osteoporose pode ficar comprometido por um desequilíbrio na renovação óssea e por alterações na atividade celular, o que costuma limitar a resposta regenerativa deste paciente.

Pensando em mitigar esse empecilho, pesquisadores da Faculdade de Odontologia da Unesp (FOA), câmpus de Araçatuba, estão trabalhando em um biomaterial que deve acelerar a recuperação óssea, facilitando a aplicação de próteses nos consultórios odontológicos. O estudo está sendo conduzido por Nathália Dantas Duarte, doutoranda da área de implantodontia do Programa de Pós-Graduação em Odontologia (PPGO) da Unesp. Em março de 2026, a pesquisadora teve seu projeto contemplado pela Osseointegration Foundation, nos Estados Unidos, como a melhor proposta de pesquisa na categoria Ciências Básicas, recebendo uma bolsa de US$ 50 mil para seguir com o estudo.

Duarte trabalha com o tema desde o seu mestrado, e teve a oportunidade de realizar um doutorado sanduíche na Ohio State University, nos Estados Unidos, colaborando no grupo de pesquisa dos professores Brian L. Foster, da Universidade de Ohio, e Paulo Noronha Lisboa-Filho, da Faculdade de Ciências da Unesp (FC), câmpus de Bauru, atualmente em Ohio. A cientista é orientada por Roberta Okamoto, professora titular e coordenadora do Laboratório para Estudo de Tecidos Mineralizados da FOA, e seu estudo é financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). 

O encontro anual da Academia Americana de Osseointegração (AO) permite aos pesquisadores inscreverem seus trabalhos em diversas categorias. Para a edição de 2026, Duarte havia se inscrito inicialmente apenas na categoria Student Travel Grant, a qual também foi contemplada. Com isso, ela pôde apresentar os resultados do seu mestrado durante a conferência realizada em Washington, DC, entre 5 e 7 de março. 

Após contar que havia sido contemplada entre os estudantes, a jovem foi incentivada pelos professores a se candidatar também na categoria Basic Science Research Grant com o seu projeto atual de doutorado. Duarte concorreu com cientistas do mundo inteiro, e garantiu o primeiro lugar do pódio ao Brasil, colocando o país como destaque em estudos sobre a temática. 

A resposta sobre a categoria Basic Science Research Grant veio por e-mail, no dia 11 de março, com instruções e prazos para a evolução da tese. Em 2027, a doutoranda deve participar de outra edição do encontro anual da entidade, em San Diego, na Califórnia, para apresentar os resultados obtidos durante o estudo.

Nathália Dantas Duarte e a professora Roberta Okamoto durante encontro anual da Academia Americana de Osseointegração, em Washington, DC. (Crédito: Arquivo pessoal)

Testando compostos para o fortalecimento ósseo

Durante o mestrado, Nathália Dantas Duarte testou um composto bioativo oriundo da soja, chamado genisteína, incorporado a três substitutos ósseos. A genisteína foi escolhida por integrar o grupo dos flavonoides – compostos bioativos encontrados em algumas frutas cujos principais propriedades são anti-inflamatórias e antioxidantes. No estudo, em específico, os cientistas estão analisando também o potencial osteogênico, ou seja, de recuperação óssea, desses flavonoides. 

“Obtivemos bons resultados com o composto quando testado em defeitos confeccionados ao redor dos implantes dentários”, explica Duarte sobre a dissertação. “E então resolvemos aprofundar os estudos da genisteína no doutorado, também incorporada a um biomaterial”.

O biomaterial aplicado no doutorado tem origem sintética e é produzido pela empresa italiana BTK Dental. Duarte conheceu o gerente científico da companhia, Luca Canton, durante uma conferência em Berlim, na Alemanha. A pesquisadora estava apresentando o seu projeto de mestrado quando foi interceptada pelo pesquisador, que demonstrou interesse pelo trabalho e doou ao laboratório da Unesp o biomaterial rigenera

No mestrado, Duarte testou o produto em ratos fêmeas com osteopenia – uma perda gradual de densidade mineral óssea, porém mais leve que a osteoporose. Agora, ele será aplicado na parte superior do crânio de ratos fêmeas osteoporóticas, analisando os efeitos do biomaterial nesta doença metabólica crônica. 

Além da genisteína, também está sendo aplicado no projeto outra biomolécula flavonoide chamada naringenina, oriunda da fruta toranja. Segundo Duarte, o objetivo do estudo é desenvolver um produto específico para pacientes com osteoporose que precisam de tratamento reabilitador com implantes dentários. “Esse grupo apresenta uma qualidade óssea desfavorável quando comparado a pacientes saudáveis. Precisamos de um estímulo biológico extra para atingir um leito ósseo adequado para a instalação desse implante, e hoje no mercado não existe nenhum biomaterial específico para essa população”, diz a cientista. 

A escolha por ratos fêmeas não é aleatória. As mulheres são mais suscetíveis a desenvolverem osteoporose após a menopausa devido à queda do estrogênio, hormônio que protege os ossos. Por conta disso, a cientista acredita que pessoas do sexo biológico feminino serão as principais beneficiadas pelo estudo. 

A professora Roberta Okamoto destaca a metodologia aplicada no doutorado, com o uso de roedores osteoporóticos ao invés de ratos com osteopenia. Com essa mudança, os cientistas poderão olhar para um leito atrófico, já bastante prejudicado, em que é necessário uma regeneração óssea intensa, mas que não ocorre de forma natural. “Nesse caso, quando a gente coloca o material e conclui que houve formação óssea, sabemos que é devido ao material que estamos trabalhando e aplicando”, exemplifica Okamoto.

Incorporando conhecimento de outras unidades da Unesp

O estudo também se diferencia pela aplicação de uma técnica denominada sonoquímica, que já era aplicada no laboratório do físico Paulo Noronha Lisboa-Filho, coordenador do Coordenador do Grupo de Física Aplicada à Medicina e a Nanotecnologia, no câmpus da Unesp em Bauru, e que foi incorporada à pesquisa realizada em Araçatuba. Para explicar o processo, Duarte compara o procedimento ao trabalho de um mixer de milkshake.

“O equipamento é inserido em um becker com o biomaterial sólido e água. Então, ele dispara ondas ultrassônicas para homogeneizar o composto ao biomaterial. Como isso é feito em meio aquoso, a gente precisa levar essa solução a uma estufa a 60ºC, até a água evaporar por completo e termos o biomaterial com a molécula incorporada na superfície.”

A homogeneização do produto parece contribuir na melhora das propriedades físico-químicas do material, facilitando a sua dosagem e aplicação. 

As pesquisadores ressaltam que o estudo é ainda bastante inicial, mas o aporte da Osseointegration Foundation deve auxiliar seu desenvolvimento e, quem sabe, futuros ensaios clínicos para a aprovação em uso humano. Okamoto está otimista com esse desfecho em virtude dos bons resultados obtidos até aqui e do uso de materiais naturais combinados a compostos já aprovados no mercado. Ainda assim, destaca a docente, ainda não é possível estimar um tempo para a obtenção do produto final.

Imagem acima: pesquisadora Nathália Duarte Dantas apresenta os resultados do seu mestrado durante encontro anual da Academia Americana de Osseointegração (AO), em Washington, DC. (Crédito: Arquivo pessoal)




08/04/2026, 19h13  Atualizado em: 08/04/2026, 19h13

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