sexta-feira, 12 de junho de 2026

O projeto Sorriso Feliz: da extensão universitária às políticas públicas voltadas para a saúde bucal infantil

Iniciativa da Faculdade de Odontologia de Araçatuba trouxe atendimento odontológico a cerca de 250 mil crianças e recém-nascidos entre 2013 e 2025, alcançando escolas e creches de dez municípios do interior e se firmando como referência para secretarias de saúde do estado.
Isis Bianco

Ativo desde 2013, o projeto Sorriso Feliz, desenvolvido pela Faculdade de Odontologia de Araçatuba da Unesp, vem se destacando junto à população e as autoridades de saúde como referência na atenção primária à saúde bucal infantil em municípios do interior paulista. A iniciativa é pioneira ao proporcionar saúde bucal para o público da chamada primeiríssima infância, faixa que se estende desde o nascimento aos 3 anos, e abrange também a primeira infância, que chega aos 6 anos.

As crianças têm acesso a ações de prevenção, educação em saúde, avaliações clínicas e tratamentos odontológicos que são realizados diretamente em creches públicas. Este modelo de atendimento resulta em uma importante aproximação da universidade junto às demandas da comunidade e ampliando o acesso de crianças em situação de vulnerabilidade aos cuidados em saúde bucal. Segundo a Pró-Reitoria de Extensão Universitária e Cultura, o projeto atendeu cerca de 250 mil crianças e recém-nascidos de 2013 a 2025.

Embora as ações que deram origem ao projeto existam desde o final da década de 1980, a iniciativa foi formalizada como projeto de extensão universitária da Unesp em 2013, sob o nome Sorriso Feliz – Fortalecimento da Atenção Primária à Saúde Bucal na Primeiríssima e Primeira Infância na Educação Infantil do Estado de São Paulo – DRS II. Desde então, o projeto passou a integrar de forma permanente as atividades de ensino, pesquisa e extensão da universidade.

Atendimento em escola

Ao longo dos últimos anos, o Sorriso Feliz expandiu significativamente sua atuação, estando presente em 40 municípios vinculados ao Departamento Regional de Saúde de Araçatuba (DRS II), dentre eles: Araçatuba, Birigui, Santo Antônio do Aracanguá, Brejo Alegre, Luisiânia, Buritama, Glicério, Lourdes, Murutinga do Sul e Piacatu.

No ano anterior, em Araçatuba, as ações alcançaram 32 escolas municipais, que somavam 5.751 crianças matriculadas. Desse total, 4.133 passaram por avaliações de risco à cárie. As equipes realizaram tratamento restaurador atraumático (ART) e aplicação de flúor em 924 crianças, totalizando aproximadamente 2.105 dentes tratados dentro do próprio ambiente escolar.

A experiência desenvolvida pela universidade também começou a repercutir fora do ambiente acadêmico. Tramita atualmente na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo o Projeto de Lei nº 449/2026, inspirado diretamente na metodologia aplicada pelo projeto. A proposta prevê a criação da Política Estadual “Sorriso Feliz”, voltada ao fortalecimento da atenção primária à saúde bucal na primeiríssima e primeira infância, com ações integradas de prevenção, diagnóstico precoce, educação em saúde e cuidado contínuo em creches, escolas e unidades de saúde.

Na origem, a história de vida de um docente

A trajetória que deu origem ao projeto está diretamente ligada à atuação do professor Wilson Galhego Garcia. O contato do docente com crianças começou ainda na adolescência, quando atuava como voluntário no Lar José Maria Lisboa, uma instituição de longa permanência localizada em Birigui, interior de São Paulo. A experiência o aproximou de importantes nomes da odontologia da região, como os doutores Roberto Holland e Pedro Felício Bernabé, que realizavam atendimentos odontológicos voluntários aos sábados na própria instituição. 

Embora convivesse com profissionais renomados, o vestibular para odontologia não lhe interessou à época. Sentindo afinidade pelas ciências humanas, Galhego ingressou no curso de Letras. Posteriormente, concluiu mestrado em Linguística e doutorado em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). Sua trajetória acadêmica, no entanto, foi atravessada pelo contexto político da ditadura militar. Durante os anos de chumbo, após o golpe de 1964, o docente sofreu perseguições políticas que interromperam parte de sua formação universitária, levando-o a permanecer afastado da vida acadêmica por um período devido ao risco de ser preso.

Mas foi neste contexto que se deu sua aproximação com a Faculdade de Odontologia de Araçatuba. Sem uma afiliação acadêmica, o antropólogo foi acolhido pelo professor Roberto Holland, então diretor da faculdade, que lhe cedeu uma sala no Departamento de Odontologia. Nesse espaço, Galhego podia escrever artigos, participar de discussões acadêmicas e colaborar na tradução de trabalhos científicos para o inglês. Esta atuação permitiu que, progressivamente, ele se aproximasse da área odontológica e da produção científica da instituição.

Seu ingresso oficial na FOA ocorreu em julho de 1985. Na época, uma reformulação curricular nacional passou a exigir  que a formação dos estudantes incluísse uma disciplina de Ciências Sociais Aplicadas à Odontologia. Diante da necessidade imediata de adequação curricular para que a última turma daquele período pudesse concluir a graduação, Wilson Galhego foi contratado em caráter emergencial para assumir a disciplina. Por orientação de Roberto Holland, passou a desenvolver um trabalho voltado à relação entre profissional e paciente, aproximando a formação odontológica de discussões ligadas às ciências humanas e ao cuidado na saúde bucal.

Naquele mesmo ano, o envolvimento de Galhego com as questões sociais se aprofundou quando assumiu a vice-supervisão do Centro de Assistência Odontológica à Pessoa com Deficiência (CAOE). Tratava-se de uma unidade auxiliar da FOA-Unesp voltada ao atendimento de pessoas com necessidades especiais. A convite de Rui dos Santos Pinto, fundador da unidade, o docente passou a conviver diariamente com pacientes e, sobretudo, com mães que enfrentavam sozinhas os desafios do cuidado, da vulnerabilidade social e da exclusão.

A experiência marcou profundamente sua trajetória profissional e acadêmica e serviu de base para pesquisas sobre as formas, muitas vezes silenciosas, de preconceito presentes no atendimento odontológico. “Eu me via em um paradoxo, tendo contato com um pessoal de primeiríssimo mundo e convivendo, ao lado, com uma população mal atendida, ou que não é atendida”, relembra o docente.

A defesa de um novo modelo

Essa constatação motivou-o a buscar meios para aproximar a universidade das demandas da comunidade externa. Um ponto decisivo nessa busca deu-se em 1988, quando orientou a tese de doutorado de Luíza Nakama. A doutoranda era vinculada à Pastoral da Criança e à Bebê Clínica de Londrina, instituição pioneira na atenção odontológica voltada à primeira infância. A partir dessa aproximação, o docente passou a ter contato com protocolos, formulários e metodologias estruturadas de acompanhamento da saúde de bebês e gestantes.

A partir da descoberta dessas experiências, Galhego passou a defender um modelo de assistência odontológica que ultrapassasse os limites físicos da universidade. A escolha pelas creches e berçários públicos surgiu a partir de uma percepção ligada à própria dinâmica da saúde coletiva: os atendimentos realizados de forma individualizada em consultórios eram insuficientes diante da velocidade com que novas demandas surgiam. Quando o acompanhamento de um grupo era concluído, muitas das primeiras crianças avaliadas já apresentavam novamente lesões de cárie. Levar as ações diretamente para o ambiente escolar permitiria inverter esse cenário, priorizando prevenção, acompanhamento contínuo e cuidado em larga escala ainda nos primeiros anos de vida.

A consolidação dessa proposta ocorreu durante uma viagem a Foz do Iguaçu, onde Wilson acompanhou um treinamento promovido pela Pastoral da Criança. Na ocasião, presenciou a médica Zilda Arns, fundadora da organização, ensinar a mães uma técnica simples de higienização bucal infantil: enrolar uma gaze no dedo, umedecer em água e limpar delicadamente toda a boca do bebê.

   Wilson Galhego e Zilda Arns em 2004. Acervo pessoal

A simplicidade e a eficácia do método chamaram a atenção do professor, especialmente pelo fato de não provocar desconforto ou resistência nas crianças. Pouco tempo depois, ainda no final da década de 1980, Galhego passou a mobilizar estudantes da Unesp para aplicar a técnica em berçários de creches públicas da região de Araçatuba e Birigui. As ações incluíam a higienização bucal dos bebês, além de orientações direcionadas a educadoras e mães sobre a importância de repetir o procedimento diariamente.

Ao longo das décadas de 1990 e 2000, as visitas às creches e as ações preventivas passaram a constituir a principal base das atividades de campo coordenadas pelo linguista. Buscando garantir respaldo técnico, e evitar possíveis resistências relacionadas à atuação fora do ambiente clínico tradicional, ele determinou que todas as atividades preventivas envolvendo atendimento odontológico fossem acompanhadas por cirurgiões-dentistas da rede pública de saúde. Sua participação pessoal focou principalmente a coordenação pedagógica das ações, as articulações para obtenção e distribuição de insumos (o que resultou, ao longo dos anos, na entrega de milhares de escovas de dentes), e na capacitação contínua de educadoras durante as reuniões escolares.

Os estudantes se juntam ao projeto

Entre 2010 e 2011, os estudantes de graduação em odontologia passaram a acompanhar agentes comunitários de saúde em visitas domiciliares vinculadas às Unidades Básicas de Saúde (UBS). O engajamento dos estudantes representou um amadurecimento da iniciativa e abriu caminho sua formalização como projeto de extensão universitária da Unesp. Em 2013, a proposta foi oficialmente submetida aos órgãos da universidade e registrada no sistema de extensão da Universidade. O nome Sorriso Feliz foi sugerido por um aluno durante uma das aulas do professor Galhego. 

 Estudante demonstra limpeza da gengiva

A integração à estrutura acadêmica da universidade trouxe às ações maior respaldo institucional e apoio à expansão das atividades. Ao longo dos anos seguintes, as avaliações realizadas nas escolas passaram a demonstrar uma presença significativa de lesões de cárie entre as crianças atendidas, levando a equipe a avançar para além das estratégias preventivas e educativas. Triagens e avaliações clínicas mais detalhadas começaram a ser incorporadas às atividades, produzindo dados que reforçaram a necessidade de aproximação com as políticas públicas de saúde.

A dentista Maria Ester Gumerato integra o projeto Sorriso Feliz desde o início. Formada pela USP de Ribeirão Preto e com 36 anos de atuação profissional, Maria Ester conheceu Wilson Galhego enquanto trabalhava como diretora do departamento odontológico da prefeitura de Birigui. A odontologista participou das atividades de avaliação de saúde bucal, orientação de higiene e atendimento das crianças assistidas pelo projeto.

Ao participar no projeto, Maria Ester constatou que grande parte das crianças nas escolas atendidas, embora estivessem ainda nos primeiros anos da infância, já apresentavam necessidades odontológicas importantes e muitas vezes nunca haviam recebido qualquer atendimento odontológico.

Ela explica que a colaboração no projeto exige que o profissional atue fora de sua zona de conforto profissional, mas traz também oportunidades especiais.

“Em um consultório você tem todo o material e o equipamento à mão. No projeto, é preciso aprender a trabalhar dentro daquelas características. E é possível fazer até um certo limite. Mas o mais interessante é que você atende um monte de crianças que têm poucos recursos”, afirma.

Atendimento em escola

A secretaria de saúde do estado se interessa pelo projeto

Um passo importante nesse processo ocorreu em outubro de 2019, quando Wilson Galhego iniciou diálogos com a Coordenadoria de Saúde Bucal da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. A experiência desenvolvida pela FOA-Unesp chamou atenção por direcionar suas ações à primeiríssima infância, faixa etária ainda pouco contemplada pelas políticas públicas odontológicas estaduais naquele momento.

A partir de 2020, as articulações para integrar as ações ao programa estadual Sorria São Paulo consolidaram institucionalmente a proposta. A aproximação entre universidade e poder público permitiu ampliar o alcance das atividades para diferentes municípios da região, fortalecendo a inserção do projeto na atenção primária à saúde bucal e abrindo caminho para novos financiamentos e parcerias institucionais.

Com a ampliação das ações realizadas nas creches e escolas, o projeto começou a demandar também uma organização institucional mais ampla, envolvendo planejamento, articulação com órgãos públicos e estrutura administrativa capaz de sustentar a expansão das atividades. É nesse contexto que se intensifica a participação da professora Cristina Antoniali Silva, atual coordenadora do Sorriso Feliz.

Aproximação com os municípios

Ligada à Faculdade de Odontologia de Araçatuba, Cristina Antoniali passou a acompanhar o crescimento do projeto em um momento em que as ações deixavam de ser iniciativas mais localizadas para assumir uma dimensão regional. Além do trabalho desenvolvido diretamente nas escolas e creches, tornou-se necessário estabelecer diálogo contínuo com secretarias municipais, diretorias regionais e diferentes instâncias da universidade para garantir a continuidade das atividades.

Segundo a professora, os anos de 2022 e 2023 marcaram uma etapa importante de ampliação do Sorriso Feliz. Inicialmente concentrado nas escolas municipais de Araçatuba, o projeto passou a alcançar também outros municípios vinculados à Regional de Saúde de Araçatuba (DRS II). Esse crescimento exigiu a organização de equipes, logística de atendimento, definição de cronogramas e articulação entre universidade, escolas e serviços públicos de saúde.

Ao mesmo tempo, o projeto consolidou um modelo de atuação que articula ensino, pesquisa e extensão. Estudantes de graduação e pós-graduação passaram a participar diretamente das atividades em campo, enquanto pesquisas vinculadas à saúde bucal infantil começaram a ser desenvolvidas a partir dos dados e experiências acumulados nas escolas. A integração entre essas diferentes frentes ajudou a estruturar o Sorriso Feliz como uma ação contínua da universidade junto à comunidade.

“A comunidade apresenta uma demanda, e a universidade, por meio da ciência, da tecnologia e do conhecimento, atua junto dela para buscar soluções. Por isso, as parcerias com as Secretarias de Saúde e de Educação são extremamente importantes, porque a continuidade precisa ser assumida pelo próprio município mesmo depois que a universidade encerra sua participação”, explica a docente.

Projeto resultou em dissertações, artigos e TCCs

Os números também ajudam a dimensionar um dos principais impactos da metodologia adotada pelo projeto. Na prática, a maior parte das demandas odontológicas foi resolvida nas próprias escolas, evitando deslocamentos das famílias e reduzindo a necessidade de inserção em filas de espera da rede pública. Apenas 343 crianças precisaram ser encaminhadas às Unidades Básicas de Saúde (UBS), o equivalente a 8,3% do total de crianças avaliadas.

Além do atendimento direto à população, o projeto consolidou uma atuação que articula ensino, pesquisa e extensão universitária. Estudantes passaram a desenvolver atividades práticas nas escolas e creches, enquanto pesquisas relacionadas à saúde bucal infantil começaram a ser produzidas a partir dos dados obtidos em campo. Em 2025, as atividades do Sorriso Feliz resultaram em cinco trabalhos de conclusão de curso na graduação em Odontologia, cinco dissertações no Programa de Pós-Graduação em Ciências da FOA-Unesp e cinco artigos científicos publicados em revistas internacionais da área odontológica.

Visitação de equipe de estudantes da FOA para creche. Wilson Galhego está sentado à esquerda.

A estrutura necessária para sustentar essa atuação também revela a dimensão alcançada pelo Sorriso Feliz. Em 2025, participaram diretamente das atividades 40 estudantes de graduação e 10 estudantes de pós-graduação, todos bolsistas vinculados ao projeto. O financiamento ocorreu por meio de recursos da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, que destinou R$ 3,6 milhões ao projeto via Fundunesp, além de apoio da Pró-Reitoria de Extensão Universitária e Cultura (PROEC), responsável pelo financiamento de bolsas de extensão e apoio anual às atividades.

“O aluno de graduação, que está em formação, tem a oportunidade de receber o aprendizado no ambiente da universidade e colocá-lo em prática em outros ambientes. Porque, por incrível que pareça, as crianças que são atendidas pelo projeto estão em condições de maior vulnerabilidade do que os menores atendidos nas clínicas da Faculdade de Odontologia”, ressalta Cristina.

Em 2025, as atividades desenvolvidas no Sorriso Feliz deram origem a cinco trabalhos de conclusão de curso na graduação em Odontologia, cinco dissertações no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Faculdade de Odontologia de Araçatuba e cinco artigos publicados em revistas científicas internacionais da área odontológica.

As avaliações realizadas nas escolas passaram a demonstrar de forma mais evidente a dimensão do problema enfrentado. Os levantamentos de risco à cárie indicavam índices elevados de comprometimento da saúde bucal infantil, especialmente entre crianças em contextos de maior vulnerabilidade social.

“Eu vejo claramente os impactos desse projeto de forma mais ampla na saúde das crianças”, diz Cristina. Ela explica que a saúde bucal tem reflexos diretos sobre a saúde geral. Estudos mostram que crianças que carecem de saúde bucal adequada tendem a se tornar adultos com a saúde sistêmica ruim.

“Isso gera impactos não só sobre o indivíduo, mas sobre toda a comunidade. Um adulto com a saúde prejudicada produz menos e demanda mais investimentos públicos na forma de tratamentos e cuidados contínuos. Isso gera sobrecarga para o sistema de saúde. Por isso, podemos entender que um projeto como o nosso gera efeitos que se estendem para muito além da infância. Ele contribui para formar adultos mais saudáveis e, consequentemente, colabora com o país”, diz Cristina.

Fonte: https://jornal.unesp.br/2026/06/11/o-projeto-sorriso-feliz-da-extensao-universitaria-as-politicas-publicas-voltadas-para-a-saude-bucal-infantil/

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